Rebuliço na direita e golpe de Estado
Em meio a esta gigantesca crise econômica do imperialismo à nível mundial, talvez a maior da história - e do capitalismo burocrático, em particular, no Brasil - a nossa “direita”, que até outro momento existia em aparente unidade para certos comentadores “médios” da política vem demonstrado suas contradições às claras. Se movendo em passos cuidadosos, atiçando seus antagonismos quando é ordem do dia, e quando não, se valendo de chantagens, bajulações vazias e “sacrifícios de peão”. Ainda que seja tentador pensar em deixar que se dinamitem, a análise dessas contradições é essencial para as forças democráticas e revolucionárias saberem prever as possíveis unidades e rupturas e compreender suas possibilidades de manobra no golpe de estado que se aproxima.
Para isso, com esse texto, proponho prosseguir uma análise que, apesar de suas possíveis limitações, pode servir para prever certas situações, tomando como referência o histórico recente de cada força distinta e os movimentos que vêm realizando. Nesse sentido, a posição dialética que deve nos orientar é a de que “um se divide em dois”, ou seja, de que não existe unidade eterna, e os princípios de contradição e mesmo de antagonismo existem desde o surgimento de determinado fenômeno. Cada uma das forças aqui apresentadas se dividem e subdividem em cada nova bifurcação, mas nos contentamos em ser guiados por uma noção de utilidade.
“TRÊS EM UM”
Como dito, a unidade da “direita”, assim posta nas análises da esquerda oficial, não é útil hoje, nem parece ter sido útil em qualquer momento. A explicitação da pugna entre a direita militar e a extrema-direita clarifica que sua unidade é transitória e, para todos os propósitos, nem mesmo desejosa por suas partes. Essa pugna, no entanto, é circunstancial e se movimenta em atos distintos.
Seguindo a análise de que existe um golpe militar em curso se forjando no Brasil desde 2015¹, sob tutela da direita militar (portanto, dos EUA) e amparada em setores da direita civil (no projeto lavajatista de, entre grossas aspas, “moralização do estado”), é fácil compreender que lugar o núcleo bolsonarista ocupa nessa história. Primeiro que o lançamento nacional desse sabujo do baixo clero parlamentar carioca se deu a partir de sua defesa intransigente da Lava Jato, logo se capilarizando socialmente através de toda sorte de cristianismo reacionário; de meios de comunicação vários e, claro, da arregimentação de seu exército particular entre fanáticos na PM e na “milícia”.
O golpe em curso, portanto, encontra uma incógnita em seu caminho. O processo até então estava sendo levado sem nenhuma força social arregimentada diretamente, sendo mantido inteiramente no nível dos “técnicos” e “autoridades” - um processo mais burocrático e “limpo”, permitindo o funcionamento e até fortalecimento de certas instituições à despeito de outras. Bolsonaro, por outro lado, atenta abertamente contra a divisão dos três poderes, marco imediato da democracia burguesa e não descansa até a imediata supremacia formal do executivo ou a fusão dos três num corpo só - ou seja, a dissolução do parlamento e do STF, seguido imediatamente da unificação do próprio executivo em sua cruzada para minar a autonomia dos governos estaduais.
Ambas forças são fascistas, mas tem projetos e temporalidades distintas de alcançar seu objetivo - a centralização no executivo, a corporativização da sociedade civil, o domínio de uma fração do grande capital (burocrático e financeiro) sobre a outra. Ao que tudo indica, o processo de golpe preferia utilizar-se de um verniz de legalidade; portanto a unidade com Bolsonaro, formalizada na chantagem que leva as FFAA à posição de vice-presidência, parece inicialmente ter mais interesse em domar a extrema-direita, como se faz a um animal arisco, para não ter mais essa carta curinga no processo.
Contudo, essa união que leva à presidência do país em 2019 não podia ser assentada em areia mais fofa. A direita civil, a direita militar e a extrema-direita entram em diversos antagonismos públicos e escândalos que deixaram a esquerda oficial desnorteada durantes alguns meses.
O ABORTO DA DIREITA CIVIL
A direita civil, agindo historicamente sobre a tutela das FFAA, apresenta-se publicamente através dos partidos direitistas tradicionais, pelos velhos monopólios de comunicação e figuras públicas aleatórias. Deve-se lembrar, mediante a isso, que foi necessário à ingerência bolsonarista tentar criar um novo partido, propriamente fascista, e veículos de comunicação e corporativização social inéditos.
A base dessa contradição é simples. Apesar de Bolsonaro, antes de sua campanha presidencial, faltar apontar a Lava Jato como sendo iniciativa de sua cabeça; sua defesa acalorada da investigação, diferente da que fazia a direita parlamentar e a Globo, não tinha relação nenhuma com a reforma do “estado democrático de direito”, mas com uma negação completa dele. Portanto, se o "antipetismo" foi certamente frontal ao discurso bolsonarista, foi parte de uma denúncia hipócrita e oportunista, mas extremamente popular, das instituições do velho estado, da mídia tradicional e da velha política - como dito, todas frentes por onde a direita civil se apresenta. É hipócrita pois Bolsonaro é o que mais claramente explicita o que há de pior na velha política: um vagabundo profissional que gere uma família de parasitas do estado. A denúncia às instituições corruptas, ao parlamento burguês e ao monopólio da comunicação são pautas que só tem resolução cabal num discurso de esquerda, e só se tornou bandeira direitista por permissividade - e culpabilidade - da "esquerda" oficial.
Devemos nos lembrar que esse tipo de atitude é própria da extrema-direita. Como dizia o “Relatório Dimitrov”² em 1935: “É no interesse dos círculos mais reacionários da burguesia que o fascismo intercepta as massas desapontadas que abandonam os velhos partidos burgueses. Mas impressiona essas massas pela veemência de seus ataques aos governos burgueses e sua atitude irreconciliável com os antigos partidos burgueses.”
Aquela unidade circunstancial levou, enfim, à completa defenestração de toda base civil e “tradicional” do governo: de políticos, que, apesar de outsiders, ainda se portavam como referentes à partidos e projetos políticos tradicionais da direita civil - de Witzel e Dória à parlamentar e jornalista Hasselmann, entre outros. Além dos filhos do presidente, os parlamentares mais vocais em seu apoio são todos frutos diretos de seu projeto de arregimentação.
O mais importante, todavia, foi o desgaste e renúncia da principal figura da direita civil, o “paladino” das instituições, fabricado nos últimos cinco anos com um zelo tão cuidadoso que mal pode se chamar de “menino de verdade”: o intermediário da FBI Sérgio Moro. Acima de tudo, não a sua saída, mas o silêncio dos representantes das FFAA que é o que mais chama a atenção. Isso soa como um sinal geral de mudança de correlação de forças dentro da unidade existente na direita em controle do país: a direita militar, sempre principal, pois possui armas e, portanto, poder de fato; demonstra, primeiro, não querer ser intermediária entre a relação entre a extrema-direita e a direita civil e, segundo, favorecer a extrema-direita num processo de ruptura. Para Bolsonaro, isso foi um acontecimento grandioso, que, apesar de fazer romper sua base de apoio, colherá dos que permaneceram uma resposta radical muito mais intensa.
Qual a base dessa mudança de posição, que antes parecia favorecer a direita civil e inclusive sugerir uma espécie de unidade factual? Imagino que o catalisador disso sejam as demonstrações de força que as hordas bolsonaristas vem realizando, tanto através de seu movimento de massa (que, não deve-se deixar enganar, é altamente verticalizado), o que é secundário, quanto, principalmente, dos motins de PMs que levavam instruções bolsonaristas de cabo a rabo. Nessa circunstância, a extrema-direita, que já tinha uma força “miliciana” à disposição, demonstra ter um poder de armas oficial e insubordinado ao Alto Comando.
Ainda sim, devemos reforçar que o êxodo da direita civil é completamente circunstancial e que o ponto principal de aliança, ou seja, a plataforma econômica, ainda se mantém o mesmo que no início da unidade. Isso é um ponto chave para analisar a viabilidade das “frentes amplas” que comportam os que apoiariam muito facilmente o mesmo projeto genocida de Guedes e companhia se não tivesse à frente um degenerado. Mais adiante trataremos disso. Existe possibilidade de retorno à forma “três em um” do momento inicial da gestão de Bolsonaro; mas somente na circunstância de maior cerco imposto pela direita militar sobre a extrema-direita - ou seja, nem a situação mais pacífica para sua unidade implica no estancamento da disputa por poder ou dos antagonismos crescentes.
BOLSONARISMO NÃO TEM DONO
Como dito anteriormente, as contradições existem desde o princípio de cada fenômeno; desta forma, mesmo os blocos que aqui estamos tratando como sólidos comportam contradições que podem se intensificar e levar ao antagonismo e a uma nova unidade, especialmente na existência de um estímulo externo. Aqui me refiro em específco à extrema-direita, que vem agindo até então como uma manada. Meio à vários posicionamentos dos progressistas de estação, é essencial afirmar que a extrema-direita não necessita da família Bolsonaro para levar seu projeto adiante.
Claro, Bolsonaro é a figura com “carisma” e capilaridade; mas é importante analisar qual seu significado num campo político, ideológico e as ferramentas das quais ele se utiliza para sua garantia.
Entendo que Bolsonaro não é dono do dito “bolsonarismo” ou, por tabela, do “olavismo”. Se existe algo que pode se chamar como tal, é necessário o complemento de que nada nesse complexo ideológico é resultado do cérebro de um líder ou intelectual. O “mérito” deste projeto é, antes e acima de tudo, ter sido capaz de sintetizar toda sorte de preconceitos tacanhos, mas “profundamente enraizados”³ do brasileiro médio, insuflados por um projeto de ódio do cristianismo tardio e do sempre presente anticomunismo, legado da ditadura e da gestão do oportunismo. O discurso dos bolsonaristas surpreende justamente no absoluto senso comum e rudimentaridade de onde partem; inexiste qualquer tipo de articulação ideológica clara que justifique a supremacia da extrema-direita em encabeçar um projeto de nação.
Justamente por essa desvinculação, é possível a existência de um “bolsonarismo sem Bolsonaro”, e os fatores externos que intensificariam a disputa para encabeçar a extrema-direita são bastante claros: a família é uma trupe de criminosos encabeçada por um paraquedista político. Muito facilmente eles serão queimados - e já vimos a ameaça de “vou expor tudo” sendo usada como chantagem por tantos, de Olavo a Queiroz. Caso isso aconteça, diferente da previsão de uns otimistas, há a possibilidade do discurso de extrema-direita se intensificar em curto ou médio prazo: primeiro porque agora se apoiaria como uma reação ao reacionarismo já existente (!) no sentido de “limpar a direita do nome de Bolsonaro”; segundo, porque, nesse processo, suas lideranças já viriam completamente de fora das instituições, diferente de Bolsonaro, e muito mais próximas de um movimento fascista com base nas ruas.
É nesse sentido que devemos observar figuras como Sara Winter e Douglas Garcia, que estão fazendo com Bolsonaro o mesmo que Bolsonaro fez com a Lava-Jato: lançando-se perante seus apoiadores como o seu defensor mais destacado, para a partir de sua organicidade alçar-se a nível de liderança nacional. O tempo dirá.
O outro ponto a se destacar é a envergadura da comunicação do presidente em todos os cantos do país. Bolsonaro tem dois monopólios televisivos, Record e SBT a seu favor - que conseguiu unir numa espécie de sagrada aliança em sua cruzada contra a rede Globo, porta-voz histórica da direita civil em conjunção com os militares - além das rádios e TVs católicas e evangélicas. Bolsonaro completou a tarefa do MBL de transformar a rádio Jovem Pan, que por mais de década era apenas uma reprodutora medíocre de música pop, numa verdadeira rede de propaganda fascista. Bolsonaro financiou a criação de um poderoso e inédito complexo de divulgação de suas linhas políticas, entregues imediata e diretamente à sua base sem qualquer espécie de filtro, através de canais de Whatsapp; impulsionando-se nas redes sociais “organicamente” ou através de robôs. É necessário muito pensamento positivo para imaginar que a queda do Bolsonaro seria suficiente para desarticular tudo isso.
O dano deixado pelo seu projeto custará décadas para ser desfeito. Os que colherão o que ele hoje planta serão mais violentos, mais desinibidos, mais articulados e com certeza, mais “bolsonaristas” que Bolsonaro. Quem acha que 2020 é o fundo do poço que aperte o cinto.
A FUTURA CISÃO DO OPORTUNISMO
Existe também, uma quarta força de direita, mas que se apresenta completamente débil e quase irrelevante meio às lutas internas: no caso, a esquerda oficial. Não articularei aqui como a gestão do oportunismo preparou todas as condições necessárias para a ascensão fascista, já existe material suficiente sobre isso: o amansamento da sociedade civil através da sua corporativização, a criação de leis proto-fascistas que serão muito úteis no percurso do golpe de estado, como a “Lei Antiterrorismo” e a “Lei da Ficha Limpa”, etc. Prefiro me deter nos andamentos do oportunismo hoje.
Numa posição alucinada de prever o golpe e ao mesmo tempo articular forças para as próximas eleições, a esquerda oficial planta e colhe todas as palavras de ordem ao mesmo tempo. Pelo Impeachment, pela resignação, pelo STF, pela Constituição, pela Democracia Burguesa… Mas nunca pelas ruas. Isso, por um lado, é continuação dum processo de, desde 2015 (ou mesmo antes), ser incapaz de lançar uma palavra de ordem autônoma que não seja simples reação aos desmandos dos governos - ou à prisão de seu ex-presidente.
Por outro lado, à beira de um golpe, o papel da esquerda oportunista é importantíssimo às forças que o lideram. Seus porta-vozes dizem abertamente para evitar tensionamentos que dêem “justificativas” aos fascistas que querem o fascismo independente de qualquer coisa. Incitam sua base a antagonizar com as forças independentes mais que antes, utilizando-se da pandemia como justificativa - mas sabemos que argumentariam de maneira semelhante em outra circunstância.
Para a direita militar, assim como em 64, é valioso que exista uma oposição oficial, que consiga manter a ilusão de superestrutura demoliberal. O grupo de Bolsonaro, por outro lado, defende abertamente a “limpeza” geral de qualquer força opositora. Não é por acaso que muitas figuras da esquerda oficial tenham se posto como “admiradoras” do “pragmatismo” e “sensatez” de Mourão, como Flávio Dino, que disse que, sob a égide do general, “O Brasil chegará em 2022 em melhores condições”4. Isso, quando a contradição entre a direita militar e a extrema-direita estava mais intensa, mês de Abril. Hoje, com sua unidade frágil e com o expurgo da direita civil, o discurso sustenta-se na promoção de unidade com os expurgados. A direita civil, salvaguardando-se entre as forças que teoricamente deveriam destruí-la, está em mãos muito mais cuidadosas e amigas que entre as outras direitas.
Como posto no presciente editorial do jornal A Nova Democracia em setembro do ano que passou, “Se a extrema-direita lograr impor o regime militar fascista que predica, arrastando junto de si a direita militar, tenderão a centro-direita e o oportunismo a manterem-se num campo intermediário, entre revolução e contrarrevolução, brandindo “nem um e nem outro!”, mas só transitoriamente. Se a direita [militar] triunfar sobre a extrema-direita, impondo sua forma de máxima centralização de poder no Executivo encoberta do véu constitucional e careta “democrática”, ao fim e ao cabo, tanto a centro-direita quanto a maioria da falsa esquerda oportunista – sedentas eleitoreiras – se unirão à ofensiva contrarrevolucionária em oposição à revolução.”5
Para o propósito de nossa análise, o que é central são as possibilidades de manobra que têm as forças verdadeiramente democráticas e revolucionárias que existem no Brasil. Primeiro que esse tipo de “frente” é uma unidade categorizada pela moderação das plataformas, o que a torna extremamente impopular entre os setores mais radicais de cada pólo: os mais reacionários da direita civil se deslocam com facilidade para a extrema-direita e os mais radicais na esquerda oficial, por não terem para onde ir, abandonam seus postos e as ilusões correspondentes ou seguram-se de maneira ressentida.
Já não bastasse isso; como dito antes, o caráter de antagonismo entre a direita civil e as outras duas forças de direita é circunstancial e, existindo garantias para seu retorno, ou forçadas à submissão via agente externo, rapidamente retornarão aos braços das FFAA. Isso provocará uma ruptura não só na “frente unida”, como na própria esquerda oficial - parte pode e vai se deslocar junto com a direita civil, enquanto outra forçará uma ruptura. Os sedimentos que esvaem-se dessas rachaduras, no entanto, servirão para fortalecer uma nova unidade, dessa vez democrática de fato: mas por uma nova democracia.
²https://anovademocracia.com.br/noticias/12256-o-camarada-dimitrov-e-imortal
³https://anovademocracia.com.br/noticias/12256-o-camarada-dimitrov-e-imortal
