Citações comentadas: "Relatório Dimitrov"

Citações comentadas da primeira metade d’A Ofensiva Fascista e as Tarefas da Internacional Comunista na Luta da Classe Trabalhadora Contra o Fascismo, de Giorgi Dimitrov.

Giorgi Dimitrov foi um revolucionário comunista búlgaro, líder internacionalista e importante teorizador do antifascismo. À beira da segunda guerra mundial, ele apresenta à COMINTERN um importante relatório de balanço sobre a luta contra o fascismo até então e as proposições táticas e estratégicas que auxiliaram objetivamente no desenvolvimento da luta antifascista mundial; apesar de conter limitações e impasses. 

Dimitrov argumenta que o fascismo, apesar de servir a interesses de uma classe (em sua análise, do capital financeiro), emerge em situação instável porque não só tenta arremedar em sua liderança elementos conflitantes do capital, da pequena-burguesia, do latifúndio, etc.; como possui uma base heterogênea:

Qual é o calcanhar de Aquiles da ditadura fascista? Sua base social. Esta última é extremamente heterogênea. É composta de vários estratos da sociedade. O fascismo proclamou-se o único representante de todas as classes e camadas da população: o manufatureiro e o trabalhador, o milionário e os desempregados, o junker e o pequeno camponês, o grande homem de negócios e o artesão. Pretende defender os interesses de todos esses estratos, os interesses da nação. Mas como é uma ditadura da grande burguesia, o fascismo deve inevitavelmente entrar em conflito com a sua base social de massas, ainda mais porque, sob a ditadura fascista, as contradições de classe entre o bando dos magnatas financeiros e a esmagadora maioria do povo são trazidas à tona em maior relevo.

Essa instabilidade também é ponto de proveito, pois necessariamente gera conflitos no “monopólio político do fascismo” que podem ser encaminhados para uma posição revolucionária. No campo pró-fascista, o favorecimento dos monopólios nem sempre condiz com sua demagogia e a violência terrorista empregada acaba afetando parte de sua base popular. Na sua “oposição democrática” ou “de esquerda”, os anseios democráticos aparentam cada vez mais serem ilusórios; além de desmascarar todas as posições pacifistas e conciliadoras perante as massas.

(...) o fascismo sacode as ilusões democráticas e mina a autoridade da lei aos olhos dos trabalhadores”.

Isso porque no processo de transição fascista a própria ineficácia da democracia liberal burguesa se apresenta com clareza, e, mesmo num nível espontâneo, a massa compreende que o fascismo é a “substituição de uma forma estatal de dominação da classe burguesa (...) por outra”.

Dessa forma, a própria “socialdemocracia” é implicada na ascensão fascista; nos países em que o governo socialdemocrata antecedeu o fascismo, como a Alemanha, os governos

“(...) aprovaram leis eleitorais que permitiram aos reacionários obter uma maioria nas Cortes (parlamento), leis que penalizavam o movimento popular...”

“(...) nenhum deles pôs fim ao desejo do camponês, nenhum deles deu terra ao campesinato…”

“(...) não tocaram nos latifundiários; combateram as greves dos trabalhadores rurais...”

O que empurrou parte das massas para a demagogia fascista que não só traz o discurso à “necessidades e demandas mais urgentes” como demagogicamente ataca os velhos partidos burgueses e socialdemocratas denunciando sua corrupção, burocratismo e ineficiência. Assim,

O fascismo foi capaz de chegar ao poder principalmente porque a classe trabalhadora, devido à política de colaboração de classes com a burguesia buscada pelos líderes social-democratas, mostrou-se dividida, política e organizacionalmente desarmada, diante do ataque da burguesia. E os partidos comunistas, por outro lado, à parte e em oposição aos social-democratas, não eram fortes o suficiente para despertar as massas e liderá-las numa luta decisiva contra o fascismo.

Essa luta, encabeçada por forças verdadeiramente democráticas e revolucionárias, depende da hegemonia proletária no seu comando: no exército militante; no partido revolucionário, e em frente às classes progressistas (especialmente o campesinato e a pequena-burguesia urbana). Pois, apesar do fascismo se tratar de um “gigante com pés de barro”, ele

“não entrará em colapso automaticamente. Somente a atividade revolucionária da classe trabalhadora pode ajudar a tirar proveito dos conflitos que inevitavelmente surgem dentro do campo burguês, a fim de minar a ditadura fascista e derrubá-la.”

Somente o proletariado, por seus interesses de classe, pode paralisar

a influência do fascismo sobre o campesinato, a pequena burguesia urbana, a juventude e a intelectualidade, e [ser] capaz de neutralizar uma parte [da base fascista] e conquistar a outra seção

Assim, o fascismo

“leva ao desenvolvimento das forças que estão destinadas a servir como sua sepultura”.

Referência:

https://www.revolutionarydemocracy.org/archive/dimitrov.pdf 
https://anovademocracia.com.br/noticias/12256-o-camarada-dimitrov-e-imortal